
Ouro, benefício militar e críticas: vitória da Coreia do Sul no futebol gera debate no país
Conquista sobre o Japão garantiu o quarto ouro consecutivo da seleção nos Jogos Asiáticos, mas declarações sobre o serviço militar provocaram críticas e reacenderam uma discussão política.
A comemoração do quarto ouro consecutivo da Coreia do Sul no futebol masculino nos Jogos Asiáticos de Aichi Nagoya acabou dividindo espaço com uma polêmica que vai muito além do campo. Depois da vitória sobre o Japão na decisão, declarações de jogadores sobre o benefício relacionado ao serviço militar chamaram atenção e fizeram o debate sobre as regras sul coreanas voltar ao centro das discussões.
Após levantar a medalha de ouro, o capitão Lee Ki Hyuk teria comemorado dizendo: “Eu não preciso ir para o exército”. Yang Min Hyuk também falou abertamente sobre o tema e afirmou: “Acho que joguei os jogos pensando na única recompensa de ser isento do serviço militar”.
As declarações provocaram críticas justamente pelo momento em que foram feitas. Para parte dos questionamentos, o destaque dado ao benefício militar logo depois da conquista acabou ofuscando o próprio resultado esportivo. A repercussão aumentou ainda mais por outros episódios envolvendo os atletas durante a celebração.
Entre eles, chamou atenção o uso de bonés relacionados à dispensa militar e o momento em que um dos jogadores, aparentemente mancando, retirou a medalha de ouro de dentro do próprio calçado. A atitude recebeu críticas de pessoas que associaram a cena à imagem de soldados feridos em acidentes com minas terrestres.
Apesar da forma como o benefício é popularmente descrito, a regra não corresponde exatamente a uma dispensa completa das obrigações. Os atletas que conquistam o ouro nos Jogos Asiáticos podem ser incluídos no programa de pessoal de artes e esportes, uma modalidade alternativa ao serviço militar ativo convencional.
Nesse sistema, os beneficiados permanecem vinculados à sua área de atuação durante 34 meses e precisam cumprir 544 horas de trabalho voluntário utilizando suas habilidades especializadas.
A discussão não é nova no futebol sul coreano. Durante os Jogos Asiáticos de Jacarta Palembang, em 2018, o benefício também ganhou enorme repercussão por causa de Son Heung Min. Na época, o jogador defendia o Tottenham Hotspur, da Inglaterra, e integrou a seleção como um dos atletas acima da idade permitida para a categoria.
A Coreia do Sul também enfrentou o Japão na final daquela edição e conquistou o ouro, resultado que permitiu a Son ingressar no programa de artes e esportes. Apesar disso, o atacante adotou uma postura diferente ao falar sobre a conquista.
“Conseguimos ganhar a medalha de ouro graças ao apoio do povo. Estou usando a medalha de ouro, mas acredito que ela pertence ao povo”, declarou Son após a vitória. Ele ainda aconselhou os companheiros mais jovens a não se acomodarem com o título e a continuarem fazendo sacrifícios pelo futebol sul coreano.
Agora, a repercussão voltou a ultrapassar o universo esportivo. Parlamentares tanto do partido governista quanto da oposição passaram a defender uma revisão das regras que determinam quem pode receber o benefício militar.
O deputado Kim Byung Joo, do Partido Democrata, destacou que o sistema foi criado em 1973, quando a realidade relacionada aos recursos humanos das Forças Armadas era diferente. Segundo ele, a Coreia do Sul atualmente enfrenta uma redução no número de pessoas disponíveis para o serviço militar, enquanto aumentou a quantidade de áreas consideradas relevantes para a projeção internacional do país.
Kim defendeu uma reorganização gradual do modelo, incluindo uma possível redução dos grupos contemplados e dos benefícios oferecidos, em vez de simplesmente acabar com o sistema.
Na Kyung Won, deputada do People Power Party, também avaliou que a principal questão estaria nas próprias regras. “O problema não são os atletas, mas o sistema ultrapassado”, afirmou. Ela defendeu uma reavaliação das competições e modalidades que dão acesso ao benefício, além da ampliação de alternativas que permitam aos atletas manter suas carreiras enquanto cumprem as obrigações militares, como a participação no Armed Forces Athletic Corps.
Park Sung Hoon, porta voz do People Power Party, seguiu uma linha semelhante e afirmou que os critérios deveriam considerar aspectos como o nível de competição de cada modalidade e sua relevância internacional, em vez de simplesmente escolher entre manter ou abolir o sistema atual.
Assim, o que começou com a repercussão das declarações e atitudes dos jogadores após o título acabou se transformando em uma discussão mais ampla sobre o modelo de serviço militar da Coreia do Sul. Enquanto a seleção celebra mais uma conquista histórica nos Jogos Asiáticos, o país volta a questionar se uma regra criada em 1973 ainda corresponde à realidade atual.
Fonte: allkpop
